Por um acidente feliz do destino, no vôo que me levava do Brasil até Roma, ocupei uma poltrona bem à frente de Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Que detonou Lazaroni, o treinador da seleção.

Começou acidentalmente, num voo transatlântico, do Rio de Janeiro até Roma, a minha missão de cobertura, para a “Folha”, da Copa de 90 na Itália. Ivan Siqueira, um caro amigo de lides gastronômicas, também diretor da “Ícaro”, a revista de bordo da extinta Varig, soube que a logística do jornal havia reservado passagem em meu nome e me propiciou um “upgrade” à primeira classe. Não se recusa o conforto numa viagem de quase 10.000 quilômetros. Só que, por incrível coincidência, mais do que o aconchego, a promoção me concedeu uma poltrona isolada, bem no bico do aparelho, exatamente à frente de onde se alojaram Ricardo Teixeira, o presidente da CBF, e Kléber Leite, ex-radialista, ex-presidente do Flamengo e um dos patriarcas do chamado Marketing Esportivo no Brasil.

Kleber Leite e Ricardo Teixeira

Kleber Leite e Ricardo Teixeira

Reprodução Portal dos Jornalistas

Eu não me separava de um gravadorzinho de bolso, no tamanho e no formato de um maço de cigarros. E nem sabia que o apetrecho me seria tão crucial. Depois de um par razoável de uísques, Teixeira elevou o vozeirão e desandou a falar mal de uma infinidade de pessoas do Futebol. Não havia me vislumbrado, ou não me identificou. Percebi a rara chance de um flagrante e, obviamente, de uma matéria. E levantei o gravadorzinho a uma posição em que captasse o papo sem que os meus vizinhos de trás o vissem. Pois, entre palavrões e ironias, o presidente da CBF zombou de Sebastião Lazaroni, o treinador que ele mesmo escolhera, parece inacreditável, ou parece maluco, para comandar a seleção do Brasil naquela Copa.

Ricardo Teixeira e Sebastão Lazaroni

Ricardo Teixeira e Sebastão Lazaroni

Reprodução CBF

Num resumo, bradou que cometera uma estupidez brutal ao contratar Lazaroni, um burro e um incompetente e um coitado etc. etc. etc. Mal desembarquei em Roma e colhi a minha bagagem, me dirigi a uma agência da Italcable e, veloz, transmiti um texto com a preciosa descrição do episódio. A “Folha” publicou na primeira página. Teixeira tentou desmentir e até me processar. Desistiu quando eu exibi, a um grupo de colegas, e a um magistrado, o conteúdo da fita com toda a sua bizarra parlapatice. E eu nem fôra até a Velha Bota para acompanhar a seleção de Lazaroni, que ficaria em Asti, no Piemonte. Com minha base na capital, eu me incumbiria de seguir a “Azzurra”, que se concentrava em Marino, numa das periferias da cidade, e a Argentina, que se instalava em Trigoria, quase no lado contrário.

A "Azzurra", em Marino

A “Azzurra”, em Marino

Arquivo Pessoal

Uma autoestrada, batizada de A90, mais conhecida como “Gran Raccordo Anulare”, o GRA, com 66 quilômetros de extensão, dá a volta em toda Roma, tangencialmente. Acontecia de, no mesmo dia, numa Lancia Beta alugada pela “Folha”, eu visitar Trigoria pela manhã, ir a Marino pela tarde e ainda bater ponto no Centro de Imprensa Gaetano Scirea, ao lado do Estádio Olímpico, de modo a enviar os meus despachos. Acontecia de, num mesmo dia, eu dar volta e meia no GRA. Peguei a Lancia Beta, na data do meu desembarque na Itália, com zero no odômetro. Daí, ao partir, entreguei com 30.000. À distância, acompanhei as outras equipes do grupo da “Azzurra”, os Estados Unidos, a Áustria e a Tchecoslováquia E ainda as três outras do grupo da Argentina, a Romênia, Camarões e a União Soviética.

A Argentina, em Trigoria

A Argentina, em Trigoria

Arquivo Pessoal

Além de combates no Olímpico, presenciei pelejas no Comunale de Florença, no San Paolo de Nápoles, no San Nicola de Bari e até no Sant’Elía de Cágliari, na Ilha da Sardenha, o duelo tenso entre a Inglaterra e a Holanda, que ainda era só Holanda antes de se oficializar como Neerlândia, com os seus torcedores desnaturados. Ocorreu no dia 16 de Junho. Quase nas vésperas, fora da minha pauta, a “Folha” decidiu que seria conveniente eu testemunhar o prélio, menos pelo seu resultado numérico no campo do que pela possibilidade inerente de um conflito entre as hordas de violentos dos dois países. Em cima da hora, meu azar, já não mais existiam passagens aéreas de Roma até Cágliari. Problemaço: eu não poderia falhar.

Giannini, gol da Itália, 1 X 0 nos EUA

Giannini, gol da Itália, 1 X 0 nos EUA

Reprodução

Estava hospedado no Residence Park Parioli, o hotel da bucólica Via Archimede, logo acima da Villa Borghese, que eu mesmo escolhera por ser comandado por um “fratello” querido,  Riccardo Fiorentino, que me permitia a extravagância de manter uma espiriteirazinha no apartamento para minhas refeições emergenciais. Por causa das diferenças de fuso, eu necessitava me adaptar aos ditames do fechamento da “Folha” no Brasil, cerca de 23h00, plena madrugada na Itália. E, logicamente, os restaurantes de lá e a cozinha do hotel não se dispunham a permanecer abertos apenas em função do “deadline” de um periódico. Tudo bem, pois em várias ocasiões eu perpetrei o meu macarrãozinho no apê. Menos na noite peninsular do dia 14, quando remeti o meu texto sobre Itália 1 X 0 EUA, gol de Giannini, e já livre do aperto do fechamento, mas muito chateado pela inviabilidade de viajar até Cágliari, optei por me refugiar num “baretto” junto ao Residence Park. E do nada eu me salvei.

A polícia em ação contra os "hoolligans" britânicos em Cágliari

A polícia em ação contra os “hoolligans” britânicos em Cágliari

Reprodução

Chorava as mágoas pela falta de passagens com um dos donos do “baretto”, o Domenico, quando um cidadão na mesa do lado ouviu e se intrometeu, saudavelmente. Era um piloto da Marinha, incumbido de cuidar, em Cágliari, da segurança aérea do prélio famigerado. Gentilmente, o piloto me ofereceu uma carona indispensável. Só que iria de helicóptero. Admito, sem pejos, minha aerofobia. Não poderia, porém, queimar tal chance. Que se demonstraria “quase” fenomenal. Do alto, naquele helicóptero que me apavorava, eu vi as duas turbas, dos malucos de branco e dos malucos de laranja, se chocarem a poucos quarteirões do Stadio Sant’Elía. No final das contas, à caneta mesmo, redigi a reportagem que transmiti à minha chefia graças a um telefone do estádio. Valeu menos pelo resultado, 1 X 1, do que pelo conflito, dizimado por cassetetes e por bombas de gás lacrimogênio. Ótimo trabalho, elogiou a chefia. Falta, todavia eu explicar o motivo daquele “quase”.

Dentro do Sant'Elia, um pouco de paz

Dentro do Sant’Elia, um pouco de paz

Reprodução

Por se tratar de um helicóptero naval, decolaria de uma instalação militar. E, preocupado em não encontrar a base a tempo do vôo, considerei conveniente deixar a Lancia num dos estacionamentos do Scirea e fui de táxi. Só que, no retorno de Cágliari até Roma, o próprio piloto observou que, na madrugada, não existiria táxi para me reconduzir ao Scirea. Única saída: eu me acomodar na base, com a tripulação. Impossível, rebati. Tinha compromissos, bem cedinho, na manhã seguinte. E de um sargento da tripulação brotou uma sugestão.

O estacionamento do Olímpico de Roma, onde quebrei a mão esquerda

O estacionamento do Olímpico de Roma, onde quebrei a mão esquerda

Reprodução

O helicóptero não tinha a autorização indispensável para “pousar” no Scirea. Poderia, porém, me “descarregar” no Centro de Imprensa. Lá, planaria a cerca de um metro do chão, o suficiente para que eu saltasse sem me arrebentar. Sobrevivi. Todavia, desabei sobre o braço esquerdo. E na manhã seguinte precisei imobilizar a mão. É. O universo crê que, na cobertura de uma Copa, enquanto trabalha um profissional se diverte. Naquela Itália/90, a Rete 4 de TV fez um programa com dois jornalistas de roteiros opostos. Um, da Turquia, que atravessou a Copa entre a piscina do Olímpico, quadras de Tênis e boates. Outro, que digitava os seus despachos mesmo de mão esquerda na tipoia. Não, não conto quem foi.

PS: Este texto representa o esboço de mais um capítulo de mais uma tentativa de eu escrever a minha autobiografia; no mínimo, uma seleta de causos que vivi e/ou testemunhei. No próximo, ainda sobre a Itália/1990, o Futebol propriamente dito, Lazaroni, Azeglio Vicini, Maradona, e a descoberta de um colega de Brasília, o xará Sylvio Guedes, mais um, como eu, perdido entre despachos no Scirea. E haverá mais. Até esgotar o tema “Copa do Mundo”, publicarei, aqui no meu espaço do R7, textos sobre as outras disputas de 1990 até 2018. Algumas que inclusive cobri in loco: além daquelas de 70 e de 90, também a dos Estados Unidos/1994.

 

 

Fonte: R7

Foto: Divulgação