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PCC, Comando Vermelho e bicheiros usam ‘bets’ para lavar e ampliar seus lucros

Investigações ao redor do Brasil apontam que controle de organizações criminosas sobre casas de apostas está por trás de disputas territoriais, ameaças e até assassinatos

Por Bernardo Mello e Rafael Soares — Rio de Janeiro
23/06/2024

Facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), e “capos” do jogo do bicho já disputam fatias do mercado de apostas esportivas, também conhecidas como “bets”. O GLOBO levantou inquéritos policiais em estados como Rio, Ceará e Rondônia que apontam o uso das apostas online, legalizadas no Brasil desde 2018 e em processo de regulamentação neste ano, para maximizar ou lavar receitas de atividades ilícitas. A investida de organizações criminosas se misturou com brigas territoriais, incluindo assassinatos, incêndios e ataques em pontos de aposta.
No ano passado, o Congresso aprovou legislação que prevê a taxação e regulamentação das apostas esportivas online. A nova lei, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, estabelece regras para o licenciamento e busca coibir a entrada de recursos ilegais. Até agora, contudo, investigações apontam que o mercado de apostas se tornou um ramo atrativo para o crime.

Em abril, a Polícia Federal prendeu dois parentes de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, um dos chefes do PCC, em uma operação que apura o envolvimento da facção paulista com casas de apostas no Ceará. O inquérito apontou que Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho de Marcola, divulgava em suas redes sociais anúncios da Fourbet, uma plataforma de apostas esportivas online. Na prisão da cunhada de Marcola, Francisca Alves da Silva, a PF encontrou um recibo de transferência bancária e um bilhete com alusões a Menesclau de Araújo Souza.

Menesclau é apontado como responsável pela contabilidade do PCC no Ceará e participava da gestão de unidades físicas da Loteria Fort no estado, segundo a investigação. Os policiais também identificaram materiais de divulgação da Fourbet e da Loteria Fort nos mesmos pontos de aposta.
A suspeita de elo entre as bets e o PCC foi reforçada, segundo a PF, após uma abordagem policial em 2022 encontrar Leonardo no carro de Henrique Abraão Gonçalves da Silva. Ele é filho de uma das gestoras da Loteria Fort no Ceará, Cíntia Chaves Gonçalves. Leonardo afirmou aos policiais que trabalhava para Henrique, que se apresentou como responsável pela Fourbet no Mato Grosso do Sul.

Ao indiciar o quarteto por organização criminosa, o delegado da PF Igor César Conti Almeida escreveu que há “robustos indícios, também, da prática de lavagem de dinheiro obtido de forma ilícita” através das plataformas de apostas. A PF ainda não estimou o montante lavado, mas mapeou um total de R$ 301 milhões movimentados nas contas de mais de 20 investigados.
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Coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da UFF, o sociólogo Daniel Hirata avalia que as apostas online são uma “nova fronteira” para grupos que sempre buscaram diversificar suas atividades. Ele cita as rifas promovidas pelo PCC nos anos 1990, na periferia paulistana, como exemplo de que jogos de azar podem se prestar mais do que à lavagem de recursos, e servem também para capitalizar as organizações.
— Os mercados preferenciais desses grupos são os de regulamentação e fiscalização fracas. As bets representam uma oportunidade pelo ingresso de valores relativamente pequenos por aposta, mas com grande malha de atuação. E além dessa passagem de dinheiro da economia ilegal para a legal, as organizações criminais buscam entrar em atividades que podem ser lucrativas por si mesmas — avalia.

Fonte : www.globo.com.br



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