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A autora dos livros ‘Brilhos na Floresta’ e ‘A porteira Azul’ publicados pela editora Valer, Noemia Kazue Ishikawa, está entre os semifinalistas do prêmio Jabuti 2023, no Eixo Inovação, na categoria Fomento à Leitura, com o trabalho intitulado ‘Linklado: teclado digital para línguas indígenas’.

De acordo com a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), diversas línguas indígenas estavam excluídas da revolução digital por terem em seu vocabulário caracteres especiais, como ʉ, ɨ, g̃, ʉ̈̃ e i̇̂, por exemplo, que não estavam presentes na maioria dos teclados físicos e virtuais. Isso fazia com que os falantes dessas línguas se comunicassem evitando escrever ou usando substitutos para esses caracteres.

Ainda segundo Noemia, o problema também era enfrentado por estudantes indígenas que queriam escrever suas monografias, dissertações, teses em suas línguas, bem como escritores que queriam publicar suas obras em línguas indígenas.

“Essa foi uma angústia que percebi por volta de 2009, quando trabalhei em um projeto com os povos Tikuna (Maguta) no Alto Rio Solimões. Desde então, questionava a minha amiga antropóloga Ana Carla Bruno. Por que não tinha um teclado em línguas indígenas? Em 2001, eu tinha escrito parte da minha tese em língua japonesa com um computador com teclado em japonês. Então, eu não me conformava, se dá para escrever em língua japonesa com milhares de ideogramas, que é muito mais complexo, por que não conseguir escrever menos que uma dezena de caracteres da língua indígena?”

De tempos em tempos, a pesquisadora e antropóloga tiveram longas discussões sobre o assunto. Passaram 14 anos, muitas consultas com o setor de tecnologia da informática. Até que um dia, ela dividiu essa angústia com o Samuel Minev Benzecry, que ia na sala dela em busca de conhecimentos sobre fungos.

“Imediatamente, ele foi falar com o seu amigo Juliano Portela, na época, ambos com 17 anos. Os dois, resolveram o problema criando o teclado digital “Linklado”, um aplicativo que reúne caracteres especiais e combinações de diacríticos que atende a mais de 40 línguas indígenas.

Uma vez criado, passamos para uma fase de validação do aplicativo, iniciamos com os amigos indígenas que conhecíamos e, de repente, um foi passando para o outro e logo a primeira versão já tinha chegado em lugares que nem imaginávamos.”

Noemia explica que depois de tudo isso, fizeram os ajustes necessários e lançaram oficialmente no dia 11 de agosto de 2022, na Banca do Largo.

“Dezenas de pessoas vêm contribuindo para a criação do Linklado. A quem somos muito gratos. Para a inscrição do Premio Jabuti, os representantes são Ana Carla Bruno, Ruby Vargas Isla Gordiano, Samuel Minev Benzecry, Juliano Portela, e Cristina Quirino Mariano e eu, como responsável.”

Os vencedores das 21 categorias, distribuídas em quatro eixos (Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação), além do Livro do Ano, serão conhecidos em cerimônia no Theatro Municipal de São Paulo, no dia 5 de dezembro.

Livros

O livro Brilhos na floresta é uma das obras importantes pois, além da narrativa original, que aproxima a prática científica do modus vivendi de gentes da floresta, apresenta-se em quatro línguas: português, japonês, inglês e nheengatu, o que é inédito no Brasil.

É uma ficção baseada em um registro do “diário de campo”, que tem como tema a emoção de um grupo de pesquisadores de, pela primeira vez, ver, na escuridão da floresta amazônica, fungos bioluminescentes.

‘A porteira azul’ é um livro que se insere no campo da crônica, reúne textos de aventuras do cotidiano. Por meio dele a autora, que vem da área da Biologia, faz a sua estreia na literatura. Escritas com bom humor e elegância, as suas crônicas revelam que a vida pode ser divertida e mais leve, se tivermos espírito positivo. É um incentivo para os jovens fazerem boas e conscientes escolhas no campo profissional e pessoal.

Divulgação

Noemia ressalta que o Linklado precisa ser divulgado. O aplicativo existe, mas ainda falta chegar a mais usuários, os falantes das línguas. Tanto para uso cotidiano quanto na academia e o setor editorial de livros.

“Achamos que o Prêmio Jabuti possa ser um importante canal para que o Linklado chegue ao conhecimento de mais e mais indígenas e não indígenas que escrevem, publicam e aumente a literatura e, consequentemente, os leitores em línguas indígenas. Fico muito feliz em ver o sorriso de uma pessoa quando começa a digitar tudo na sua língua usando o Linklado.”

Mais sobre a autora/pesquisadora

Nascida em Londrina, no Paraná, a pesquisadora e escritora mora em Manaus desde 2004. Ela já venceu, em 2017, o Prêmio Jabuti, na categoria Gastronomia, com o trabalho intitulado: ‘Enciclopédia dos Alimentos Yanomami’ (Sanöma), com mais oito autores, chamado: ‘Cogumelos’, pela editora: Instituto Socioambeintal (ISA) e Hutukara Associação Yanomami (Hay).

Graduação em Ciências Biológicas (1995) pela Universidade de Londrina (UEL), mestrado em Microbiologia Agrícola (1997) pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), doutorado em Recursos Ambientais (2001) pela Universidade Hokkaido, no Japão. Realizou pós-doutorado no Tottori Mycological Institute, no Japão (2010) e na Universidade Clark, nos Estados Unidos (2016).

Pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Coordena o Programas de Pós-Graduação em Ecologia do Inpa e orienta no Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação na Universidade Federal do Pará – Campus Altamira. Suas pesquisas envolvem a área de Micologia, atuando nos seguintes temas: Biologia e Fisiologia de fungos formadores de cogumelos; cultivo de cogumelos comestíveis (fungicultura), busca de novos compostos antimicrobianos de origem fúngica, etnomicologia e micoturismo.

Em 2021, recebeu Diploma de Honra ao Mérito, do Consulado do Japão e Manaus. Em 2017, foi condecorada pela Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho – Grau Comendador, Tribunal Superior do Trabalho.

 

Fonte e Foto: Divulgação