InícioSAÚDESaúde Ministério quer retomada da produção de remédios para a hanseníase

Saúde Ministério quer retomada da produção de remédios para a hanseníase

Videoconferência debate Frente Parlamentar de Enfrentamento da doença
 O Ministério da Saúde espera tornar o Brasil
autossuficiente na produção de medicamentos usados no tratamento da hanseníase.
Segundo o diretor do Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções
Sexualmente Transmissíveis, do Ministério da Saúde, Gerson Fernando Mendes
Pereira, representantes da pasta estão conversando com laboratórios
farmacêuticos privados sobre a viabilidade de retomar a produção dos remédios
necessários à terapia.
 
 “Na semana que vem, vamos verificar, com os
laboratórios, quem tem condições de produzir estes fármacos”, declarou o
diretor, hoje (20), durante uma videoconferência para instalação da Frente
Parlamentar de Enfrentamento da Hanseníase, da Câmara dos Deputados.
 Desde meados da década de 1990, o Brasil, que
já foi autossuficiente, depende de doações de medicamentos anti-hanseníase
feitas pela Novartis e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). 
 Os remédios são distribuídos gratuitamente
pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e são fundamentais não só para tratar os
pacientes, mas também para interromper a disseminação da bactéria causadora da
doença, que atinge principalmente a pele e os nervos periféricos dos pacientes.
 “Precisamos ser autossuficientes na questão
dos medicamentos, que chegamos a fabricar aqui mesmo, no Brasil. O caro não é a
produção, mas o envelopamento, o blister
[a cartela na qual os comprimidos são distribuídos]”, acrescentou Pereira.

 Estratégias
de diagnóstico 

 Classificando a doença como “uma das mais
negligenciadas” no Brasil (que ocupa o segundo lugar em número de casos de
hanseníase em todo o mundo, atrás apenas da Índia), o representante do
Ministério da Saúde destacou a importância das estratégias de diagnóstico serem
atualizadas e asseguradas.
 “Só a partir de meados de 1980 o Brasil
implementou o tratamento poliquimioterápico [PQT], com um atraso de pelo menos
cinco anos. Desde então, a hanseníase, como uma doença negligenciada, nós meio
que paramos no tempo. Até hoje, o tratamento e o diagnóstico continuam os
mesmos”, disse Pereira, comparando a evolução do enfrentamento à doença com os
avanços no tratamento de pacientes com o HIV, causador da Aids, doença que,
neste mesmo período, evoluiu de uma infecção quase sempre letal para uma
condição crônica, controlável, apesar de ainda incurável.
 “Para a hanseníase, nós continuamos dependendo
do mesmo diagnóstico clínico [ou seja, obtido a partir da verificação dos
sintomas e sinais, sem o auxílio de testes laboratoriais] e do mesmo
tratamento. Precisamos investir na melhoria da qualidade do teste diagnóstico.
Não dá mais para mantermos o diagnóstico clínico. E precisamos investir em
novos tratamentos capazes de diminuir o tempo da terapia”, destacou,
enfatizando que, quanto mais rápido e eficaz a presença da bactéria for
constatada, mais eficaz serão as ações para evitar que a pessoa contagie
outras, ou que venha a desenvolver sequelas graves.
 Segundo o Ministério da Saúde, o contágio da
doença se dá por meio das vias aéreas superiores (mucosa nasal e orofaringe),
por meio de gotículas de saliva ou secreções – a doença não é transmitida pelo
toque e, via de regra, o contágio é consequência de longo período de exposição
à bactéria ativa, sendo que a transmissão do bacilo é interrompida assim que a
pessoa diagnosticada toma a primeira dose da medicação. 
 Ainda de acordo com o ministério, apenas uma
pequena parcela da população infectada chega a apresentar complicações graves.
Na quase totalidade dos casos, o tratamento não exige internação, e tem altos
índices de melhora. Saiba mais sobre os sintomas e o tratamento acessando as
páginas do Ministério da Saúde e do Movimento de Reintegração das
Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan).

 Frente
Parlamentar

 A criação da Frente Parlamentar de
Enfrentamento da Hanseníase foi proposta pela deputada federal Tereza Nelma
(PSDB-AL), por sugestão do Morhan. Segundo a assessoria da deputada, devido à
pandemia da covid-19, a frente foi instalada antes mesmo da coleta de
assinaturas dos deputados interessados em participar da associação, o que
começará a ser feito na tarde de hoje. Atingido o número necessário de membros,
ela será então registrada.
 Para Nelma, que será uma das coordenadoras da
frente, a iniciativa é um primeiro passo para tornar mais eficaz a participação
da Câmara no debate e na definição de medidas. “Ainda teremos muito o que
fazer”, disse a deputada, enfatizando a necessidade de campanhas públicas. “As
campanhas educativas são muito importantes e não podem ocorrer de ano em ano.
Elas têm que ser diárias.”
 Durante seu pronunciamento, o coordenador
nacional do Morhan, Artur Custódio, destacou a importância de uma frente
parlamentar para discutir o tema. 
 “Esta é a segunda vez que tentamos implantar
esta iniciativa aqui no Parlamento, mas tenho certeza que, desta vez, a coisa
irá para a frente. O estatuto do grupo espelha muitos das necessidades e dos
nossos desafios, não se prendendo apenas à questão da saúde, mas puxando também
pela questão dos direitos humanos, da assistência social e da resolução da
Organização das Nações Unidas (ONU), sendo o primeiro reconhecimento do
Parlamento das medidas que a ONU propôs para a hanseníase no Brasil”, disse
Custódio, acrescentando que poucos recursos são destinados ao enfrentamento da
hanseníase por se tratar de uma “doença de populações negligenciadas” e estigmatizadas.
“Dificilmente faltariam medicamentos para uma doença que não atingisse
sobretudo pessoas em situação de vulnerabilidade”, afirmou.
 O presidente da Sociedade Brasileira de
Hansenologia, Cláudio Salgado, disse estar feliz com a iniciativa. “Temos que
discutir a real situação da doença no Brasil, pois os casos registrados no
nosso país e no mundo são muito maiores do que os números registrados. Hoje,
não sabemos o real tamanho do problema, embora tenhamos tecnologias para
melhorar o diagnóstico da hanseníase. Muitas pesquisas têm sido feitas, mas
este conhecimento não chega ao SUS (Sistema Único de Saúde”, disse Salgado,
apontando a necessidade de aplicação de mais e melhores testes.
Foto: Divulgação



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